Licença poética….dá bem pra pensar nisso num caso desses. Morro de pena dessas meninas que os pais transformam em objeto sexual, pena e medo do que se tornarão. Que tipo de chance pode ter alguém que é abusado pela própria família? Menos um? é triste pensar assim, mas o sistema judiciário e toda a legislação que protege o agressor não nos têm deixado escolha diferente a ser feita. Verdade seja dita: mulher…bem, “mulher foi feita pra isso mesmo”, vejam só o que tem tramitado no Congresso e está em vias de ser aprovado: O Estatuto do Nascituro, onde mulher nenhuma, sob qualquer circunstância poderá abortar.
O feto passa a ter o direito de nascer, independente de como tenha sido gerado e a mulher (muitas vezes ela têm apenas 9, 1º anos apenas) que ?rebole? pra conseguir provar que foi estuprada e que o filho que carrega, além de ser fruto dessa barbaridade, amanhã terá o direito de receber uma ?bolsa? e terá também o direito inalienável de ter o nome do pai em sua certidão de nascimento.
Penso que será no mínimo constrangedor para essa mãe responder a essa criança a velha pergunta: ?Como foi que vocês se conheceram?? Longe de querer apoiar o aborto, feito de qualquer jeito e sob qualquer alegação, penso que devemos, antes de mais nada, defender a mulher. A menina que é transformada em ?p…? pelo próprio pai (pois me desculpem a alusão, mas não me vêm mais nada à cabeça que não seja isso) não terá direito algum, e o Estado lhe providenciará ?reparo? na forma de uma esmola com a qual esperasse, em seu ?sagrado papel? de mulher, venha a parir essa criança e tenha como sustentá- lo.
Me é impossível não entender que se ao macho fosse dado o poder e parir, coisas assim sequer seriam cogitadas. Feminismo? Pode ser que sim, com certeza sim! Triste ver que evoluímos tanto, mas quando se trata de defesa dos direitos dos mais fracos (mulher, idoso, criança) estamos ainda há anos luz de conseguir algo que valha a pena. A Lei Maria da Penha, lembrarão muitos. O Estatuto do Idoso, o ECA, etc, etc, etc. São a meu ver, uma grande pena, pois quando vemos que um grupo precisa de leis específicas para ser protegido, há sim algo a ser repensado, averiguado.
A morte desse ?pai? é um alento (um triste e penoso alento) para essa jovem mocinha que carregará consigo a pecha de ter sido a ?culpada? pela morte do próprio pai. Quem sabe se fosse menos atraente, menos ?Lolita?; quem sabe se fosse menos provocante, quem sabe, quem sabe….quem sabe fosse filha de outra pessoa. Quem sabe tivesse tido mãe que a defendesse, quem sabe tivesse tido família, amigos, professores, alguém, pois um caso assim não existe sem que alguém saiba, sem que alguém desconfie, pois crianças verbalizam, mostram, demonstram e numa sociedade como a nossa, acabam por se sentirem culpadas por provocarem o animal no homem que se digna ser chamado ?pai?.
Até quando toleraremos que nossas filhas corram esse tipo de risco? Até quando toleraremos que nossos filhos olhem para suas ?mulheres? como se fossem objetos, dos quais se dispõe do jeito que bem entendem? Até quando a covardia será bandeira a ser levantada e defendida, pois ?alto lá, tudo nesse mundo tem explicação?! Já ouvi isso tantas vezes, de outros profissionais, de outros ?pais?. Mas ninguém ainda parou pra pensar no que será doravante a vida dessas meninas, dessas mulheres, que hoje se vêem à mercê de uma sociedade que cria leis apenas, mas não as aplica.
Pois a prerrogativa é: antes de defender a vítima, o agressor, o abusador merece contar sua história e se, somente se, ele tiver lido o livro do Nabokov, ele encontrará uma ?desculpa? para explicar o porquê da existência de algo tão monstruoso, que é transformado em lenda por muitos povos. Explico- me: a lenda do boto! é dessa que falo. Uma lenda bonitinha até, que conta a história de um animal que, em noites de festa, sai da foz do rio e transformasse em um homem tão lindo e tão desejável, que todas as moças por ele se encantam.
E assim se explica como as moças, em comunidades tão isoladas aparecem grávidas, como que ?por encanto?: foi o boto! Lolitas, botos, monstros sempre conviveram nesse nosso mundo tão cheio de defeitos, mas até quando permitiremos explicações tão pífias para crimes tão horrendos?
Katiusce Nogueira é psicóloga do CRAS (Parque União)



