Chapadão do Sul/MS

Valdecir, um mártir? Para quem não sabe falamos do Ari Artuzzi (ex-prefeito cassado de Dourados)

Só Pode ter sido vingança com o primeiro jornalista a publicar denúncias de irregularidades em sua administração e o único a fustigá-lo enquanto esteve prefeito, toda a imprensa “subordinada” se deleitando com as pautas e as polpudas verbas da sacolinha de Eleandro Passaia, seu algoz na Uragano. Foi a primeira vez que não acordei sobressaltado com o telefone tocando por volta de meia-noite. Pelo que vinha acompanhando do agravamento de seu estado de saúde, a notícia já era aguardada. Como sempre, era meu informante de obituários, Archimedes Lemes Soares. O Valdecir só esperou que eu viajasse para desencarnar.

Consternado com a notícia, interrompo meu curto retiro em Fortaleza, no Ceará, para uma reflexão. Afinal, estamos falando do maior fenômeno eleitoral da história do Mato Grosso do Sul. E a primeira coisa que me vem à mente é fazer um paralelo entre sua trajetória e a de Ulysses Guimarães. Absurdo? Acompanhe meu raciocínio. Entrevistado por Jô Soares, ao ser questionado sobre o medo da morte, o velho e eterno presidente do PMDB disse que se um dia ela chegasse poderiam dizer: ?lá vai um teimoso?.

Tão teimoso que partiu sem deixar pistas, depois que o helicóptero em que viajava caiu no mar. Teimosia diferente, claro, mas que pode sido a causa da derrocada antecipada da meteórica carreira do político dito animal de pelo curto, mas que incomodou tanta gente graúda.

Muito há que se escrever sobre a vida e a morte prematura deste gaúcho de São Valentim que nem bem chegou a Dourados e já foi se abancando na política, de carona não só nas Vans sempre lotadas de doentes do simplório tio Dioclécio, mas também no mandato na Câmara Municipal. Mas nesses tempos bicudos da política brasileira, recorro à sabedoria de outro bom velhinho, o fiel escudeiro do xerife Ezequias Freire, senhor Miguel Valério, cujo conceito sobre a política douradense há tempos vem me chamando a atenção. E tudo resumido numa frase:

?Já passou a hora de Dourados voltar a ter um prefeito com inspiração?, certamente uma referência a grandes nomes que passaram pelo velho Casarão da João Rosa Góes, como Vivaldi de Oliveira, João Totó Câmara e José Elias Moreira. Praga ou não do tal sapo enterrado aos pés da estátua de Antônio João Ribeiro, será que não seria o caso de refletir se não foi o excesso de inspiração que levou o Valdecir a ter sua carreira política abreviada?

Abatido por um câncer que o incomodava desde os tempos do poder, ao deixar a vida pública para entrar na história, como escreveu o conterrâneo Getúlio Vargas, há exatos 59 anos, depois de, acuado por denúncias de corrupção em seu governo, meter uma bala na cabeça, será que Murilo Zauith ou algum de seus sucessores não terá que encontrar um cruzamento de avenidas no centro da cidade para uma estátua também dele, já que, sem ser julgado pela justiça dos homens pode ser transformado num mártir?

Texto do Jornalista Valfrido Silva Melo

Dourados

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